Para o governo liderado por José Maria Aznar não havia dúvidas. Tinham sido os independentistas bascos. A mentira foi tão forçada que acabou por ditar a inesperada derrota do executivo espanhol, dias depois, nas eleições legislativas. Mas antes, ainda houve tempo para uma atmosfera de ódio contra os bascos. Um padeiro de Iruñea que se recusou a alinhar na teoria da conspiração contra a ETA foi assassinado por um polícia espanhol exaltado. Dezenas de presos políticos bascos foram assediados violentamente nos cárceres.
Anos mais tarde, o mesmo argumento foi utilizado para atacar Hugo Chávez. Que protegia militantes da ETA na Venezuela que treinavam guerrilheiros das FARC. O nível de acusação era tão baixo que o jornal colombiano El Tiempo chegou a apontar o dedo à emissora televisiva Telesur por ter transmitido a canção Luz de Tieta de Caetano Veloso. No refrão, o cantor brasileiro clama por “eta, eta, eta, é a lua, é o sol, é a luz de Tieta”. O que para os portugueses é a Tieta do Agreste, para os colombianos era claramente um apoio à organização basca de libertação nacional. Para os jornalistas de Bogotá, que disseram ter-se baseado em fontes dos serviços secretos, a música representaria um sinal secreto.
Não foram casos únicos. Apesar do cessar-fogo decretado pela ETA, o Estado espanhol não só não quis abrir os caminhos para a paz como mantém bem acesa a chama da guerra. Não acabaram as prisões, as torturas e a manutenção das tropas espanholas estacionadas no País Basco. E ainda que a ETA não represente qualquer ameaça, continua a ser usada para atacar tudo o que tenha a ver com o protesto. Fizeram-no com os organizadores do 15 de Março, em Madrid. Fizeram-no com os estudantes valencianos espancados pela polícia. Fizeram-no com os detidos da última greve geral. E agora, chegou a vez dos protestos das vítimas das hipotecas bancárias. Também eles são acusados de ter simpatias pela ETA.
Nunca me esqueço de uma paródia que foi chacota em todo o País Basco. Há uns anos, ainda na febre das ilegalizações de organizações e proibições a todo o tipo de protestos independentistas, um colectivo basco decidiu convocar uma manifestação para um local inexistente com o nome de uma aldeia fictícia de uma conhecida telenovela. Uma associação espanhola exigiu a proibição do protesto, os tribunais de Madrid deram ordens para a polícia impedir a iniciativa e, no dia marcado, a Guardia Civil rastejava pelas encostas de um monte que era o único sítio que haviam encontrado no mapa com o nome da aldeia. O povo basco contorcia-se em riso nas tabernas.
O facto é o governo espanhol usa a velha técnica de eleger um inimigo comum para denegrir qualquer forma de protesto. É hilariante e ao mesmo tempo perigoso. Hilariante porque já ninguém acredita nas autoridades do Estado espanhol. Ontem, autarcas do PP na Galiza fugiram aterrorizados pela janela da Câmara Municipal ante os protestos que irromperam na sala municipal. E também é perigoso porque os espanhóis que lutam podem começar a identificar-se com a ETA e, quem sabe, virar-se o feitiço contra o feiticeiro.
Numa manhã de Páscoa, em 2006, acordei num acampamento no meio de milhares de independentistas bascos. Nos altifalantes, ouvia-se a canção de Caetano Veloso e escutava-se a voz de dezenas de jovens que, provavelmente, sem a ajuda dos jornalistas colombianos não conheceriam a Luz de Tieta. Provavelmente, milhões de espanhóis terão a curiosidade de saber o que fazem e o que dizem esses independentistas que não querem estar em Espanha mas que partilham o mesmo ódio à União Europeia, ao FMI, aos bancos, aos grandes grupos económicos e aos seus representantes partidários. E, no fim, talvez possam cantar juntos:
“Existe alguém em nós
em muitos dentre nós
esse alguém
que brilha mais do que
milhões de sóis
e que a escuridão
conhece também
Existe alguém aqui
fundo no fundo de você,
de mim
que grita para quem quiser ouvir
quando canta assim:
Eta,
eta, eta, eta,
é a lua, é o sol é a luz de tieta,
eta, eta!”