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Bruno Carvalho

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Contra-ataque

A esquina dos muros

Bruno Carvalho - Publicado: Quarta, 04 Janeiro 2012 23:34

Bruno Carvalho

Em caso de naufrágio, os ratos são os primeiros a abandonar o navio. 


A deslocalização para a Holanda da sociedade que controla 56 por cento do grupo Jerónimo Martins não é caso único. Por exemplo, a Agência Lusa noticiou esta tarde que o grupo editorial Leya está a despedir em Portugal e a apostar no Brasil. A realidade não é outra e os factos atestam-no: o capital não tem pátria. Quando há anos atrás se enchiam cadeiras almofadadas de potentíssimos empresários e banqueiros para anunciar em conferências o indubitável patriotismo dos oradores já os trabalhadores polacos dos supermercados Biedronka se contorciam sob a vergonhosa exploração de Alexandre Soares dos Santos. Então, encartados comentadores sucumbiam a essa enfermidade nacional que é a de tecer loas a tudo o que no estrangeiro tenha mão portuguesa. Essa doença, que se pode entender como chauvinismo, a maioria prefere ver como uma forma positiva de entender o empreendedorismo português. Uma espécie de anúncio da Coca-Cola que não diz verdades nem mentiras mas que, misturando-as com o canto celestial de meia dúzia de crianças, basta para que a pátria esteja salva.

Já poucos se lembrarão do escândalo que rebentou quando Durão Barroso partiu de malas aviadas para Bruxelas. E refresco a memória de alguns para que não se pense que a celeuma estava no abandono da chefia do governo. Não, a agitação gerou-se contra os partidos que à esquerda do PS recusaram aprovar Durão Barroso para presidente da Comissão Europeia. Que a pátria ganharia com uma União Europeia com um português ao leme, dizia a direita. Os empresários e banqueiros balofos anuíram, os seus representantes políticos gesticularam e os encartados comentadores encheram páginas de jornais contra a atitude anti-patriótica dos que contestavam o lusitano timoneiro. Um ano antes, a imprensa rejubilava com a Cimeira dos Açores. Ainda que no mundo inteiro não haja uma única pessoa que naquela ocasião se lembre de Durão Barroso e o encontro tenha ficado na história como uma reunião do trio George W. Bush, Tony Blair e José Maria Aznar, para rádios, televisões e jornais portugueses foi o deleite. O resto da história todos sabem. Uma guerra estúpida e inexplicável senão pelos interesses económicos e políticos do imperialismo e o embaraço de uma presidência europeia que representa os bancos e as grandes potências perante o naufrágio eminente.

Por muito que se escondam, os rabos ficam de fora. Uns acusaram o PS de ter sido uma criação da CIA. Outros acusaram o PCP de estar às ordens de Moscovo. Décadas depois, a verdade é nua e crua: entre estas duas organizações, os comunistas foram os únicos que defenderam o país e o povo. Desde a manutenção da reforma agrária, das nacionalizações, da oposição à entrada na CEE, no mercado único e no euro, o PCP esteve quase sempre sozinho. Mesmo hoje, quando a realidade se abate de forma tão dura e a verdade emerge, omitem-se factos, manipula-se a história e ilibam-se culpados. Os empresários e banqueiros, os seus embaixadores na Assembleia da República e no governo e os seus escribas na imprensa tratarão de lembrar-nos que cabe aos trabalhadores morrer na linha-da-frente pela pátria enquanto os generais se banqueteiam na retaguarda. Mas que não esqueçam. Não esqueçam nunca que, um dia, Miguel de Vasconcelos foi defenestrado. Atirado por uma das janelas do Paço Real, em Lisboa, o corpo do representante português do rei Filipe IV de Espanha caiu no meio da multidão enfurecida e foi alimento de cães esfomeados. O capital não tem pátria, os trabalhadores sim. E acabará por haver sempre os que, mais cedo que tarde, saberão distinguir entre patriotas e colaboracionistas. É na esquina desses muros que se levanta a vitória.


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