Nos dicionários, as palavras que começavam por estas duas letras ainda eram agrupadas como se fossem umha só e ao aprendermos o alfabeto cantávamos o ele duplo (elle em castelhano) e o cê agá (che ou ce hache em castelhano) à beira das letras que o conformam hoje.
Porém, pouco depois, a Real Academia Espanhola (RAE) decidiu rever a sua gramática e corrigiu este erro. Por trás ficou a dependente Real Academia Galega (RAG) -por entom vetada nom só a reintegracionistas senom a todo o que cheirasse a nacionalismo galego- que logo decidiu também mudar este aspecto e equiparar-se à sua homóloga castelhana. A RAG tinha ficado no que no Brasil chamam umha “saia justa”, isto é, numha situaçom incómoda, pois mostrava às claras que só movia ficha quando o dizia Madri.
Este episódio foi um claro exemplo da submissom da RAG à RAE quanto ao estabelecimento da norma do nosso código lingüístico. Dependência que também é fácil enxergar para além de no plano lingüístico, no plano simbólico: nome e legenda de ambas as instituiçons som bem semelhantes.
A RAG decidiu ir na contramao da história e negou-se a que o galego quebrasse o teito do espanhol e se mergulhasse em cheio no seu ámbito lingüístico-cultural: a lusofonia.
Hoje, essa Galiza encurralada é umha absoluta desconhecida no Brasil apesar dos estreitos vínculos lingüístico-culturais que unem os dous países.
Na cámpus universitário do Fundão, no Rio de Janeiro, um estudante brasileiro perguntou-me donde era, eu respondim “da Galiza” e o moço dixo “ah! Conheço, conheço!”, “Conhece?” Perguntei eu gratamente espantado. “Conheço, sim, por causa do Obelix e do Asterix!”.
No site de um sebo do Rio de Janeiro, que é como som denominados em galego “tropical” os alfarrabistas, tinham à venda o clássico dicionário de literaturas brasileira, portuguesa e galega que na década de 60 coordenou o filólogo português Jacinto do Prado Coelho e cuja parte galega fora redigida polo ferrolano Ernesto Guerra da Cal. Umha obra muito desconhecida na Galiza e de grande valor ora polos seus conteúdos ora polo seu simbolismo ao colocarem a literatura galega ao mesmo nível que a dos dous grandes estados lusófonos. Ao pé da foto do livro aparecia umha breve descriçom: “Trata-se de obra indispensável aos estudiosos e amantes das literaturas brasileira, portuguesa e, principalmente galesa (sic), dada a dificuldade em encontrar-se material deste idioma”. Com certeza, ajuntar numha obra as literaturas brasileira, portuguesa e a galesa (!!) teria sido umha ideia bem louca.
Os poucos livros galegos que encontrei no Rio em segunda mao som classificados como “idioma espanhol”, apesar de estarem escritos em galego-português.
Há anos um professor da universidade do Porto foi perguntando a cada aluno da sua turma em que idioma fora escrito umha prova feita por um galego segundo as normas da RAG. Cem por cento da aula dixo que o exame fora escrito em espanhol. Porto, segunda maior cidade de Portugal, fica a pouco mais de hora e meia de carro de Vigo, a “São Paulo” galega, maior cidade e capital económica da Galiza.
Leio na traduçom brasileira desse livro de leitura obrigatória para qualquer latino-americano, As veias abertas da América Latina, que a dependência económica da Colômbia em relaçom aos EUA era tam profunda que mesmo a curva dos casamentos neste país respondia à curva dos preços do café. “Até o momento propício a uma declaração de amor numa colina de Antióquia é decidido na bolsa de Nova York”, escreveu Galeano.
A paixom do galeguismo histórico por Portugal e o Brasil, ao reconhecer a Galiza formosa nos seus espelhos lingüístico-culturais, causou ciúmes em Madri.
Na Galiza a dependência é tam profunda que ainda nos damos ao luxo de nom nos divorciarmos de quem nos leva maltratando tantos anos.
No nosso caso, nom é o momento senom o próprio casal o que é decidido na RAE de Madri.