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Diego Bernal

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Logo se aprende

(In)dependência

Diego Bernal - Publicado: Terça, 30 Agosto 2011 02:00

Diego Bernal

A minha geraçom lembrará saudosa como no colégio os dígrafos ele duplo (ll) e cê agá (ch) ainda eram considerados pola atrasada gramática espanhola umha letra por representarem um fonema.


Nos dicionários, as palavras que começavam por estas duas letras ainda eram agrupadas como se fossem umha só e ao aprendermos o alfabeto cantávamos o ele duplo (elle em castelhano) e o cê agá (che ou ce hache em castelhano) à beira das letras que o conformam hoje.

Porém, pouco depois, a Real Academia Espanhola (RAE) decidiu rever a sua gramática e corrigiu este erro. Por trás ficou a dependente Real Academia Galega (RAG) -por entom vetada nom só a reintegracionistas senom a todo o que cheirasse a nacionalismo galego- que logo decidiu também mudar este aspecto e equiparar-se à sua homóloga castelhana. A RAG tinha ficado no que no Brasil chamam umha “saia justa”, isto é, numha situaçom incómoda, pois mostrava às claras que só movia ficha quando o dizia Madri.

Este episódio foi um claro exemplo da submissom da RAG à RAE quanto ao estabelecimento da norma do nosso código lingüístico. Dependência que também é fácil enxergar para além de no plano lingüístico, no plano simbólico: nome e legenda de ambas as instituiçons som bem semelhantes.

A RAG decidiu ir na contramao da história e negou-se a que o galego quebrasse o teito do espanhol e se mergulhasse em cheio no seu ámbito lingüístico-cultural: a lusofonia.

Hoje, essa Galiza encurralada é umha absoluta desconhecida no Brasil apesar dos estreitos vínculos lingüístico-culturais que unem os dous países.

Na cámpus universitário do Fundão, no Rio de Janeiro, um estudante brasileiro perguntou-me donde era, eu respondim “da Galiza” e o moço dixo “ah! Conheço, conheço!”, “Conhece?” Perguntei eu gratamente espantado. “Conheço, sim, por causa do Obelix e do Asterix!”.

No site de um sebo do Rio de Janeiro, que é como som denominados em galego “tropical” os alfarrabistas, tinham à venda o clássico dicionário de literaturas brasileira, portuguesa e galega que na década de 60 coordenou o filólogo português Jacinto do Prado Coelho e cuja parte galega fora redigida polo ferrolano Ernesto Guerra da Cal. Umha obra muito desconhecida na Galiza e de grande valor ora polos seus conteúdos ora polo seu simbolismo ao colocarem a literatura galega ao mesmo nível que a dos dous grandes estados lusófonos. Ao pé da foto do livro aparecia umha breve descriçom: “Trata-se de obra indispensável aos estudiosos e amantes das literaturas brasileira, portuguesa e, principalmente galesa (sic), dada a dificuldade em encontrar-se material deste idioma”. Com certeza, ajuntar numha obra as literaturas brasileira, portuguesa e a galesa (!!) teria sido umha ideia bem louca.

Os poucos livros galegos que encontrei no Rio em segunda mao som classificados como “idioma espanhol”, apesar de estarem escritos em galego-português.

Há anos um professor da universidade do Porto foi perguntando a cada aluno da sua turma em que idioma fora escrito umha prova feita por um galego segundo as normas da RAG. Cem por cento da aula dixo que o exame fora escrito em espanhol. Porto, segunda maior cidade de Portugal, fica a pouco mais de hora e meia de carro de Vigo, a “São Paulo” galega, maior cidade e capital económica da Galiza.

Leio na traduçom brasileira desse livro de leitura obrigatória para qualquer latino-americano, As veias abertas da América Latina, que a dependência económica da Colômbia em relaçom aos EUA era tam profunda que mesmo a curva dos casamentos neste país respondia à curva dos preços do café. “Até o momento propício a uma declaração de amor numa colina de Antióquia é decidido na bolsa de Nova York”, escreveu Galeano.

A paixom do galeguismo histórico por Portugal e o Brasil, ao reconhecer a Galiza formosa nos seus espelhos lingüístico-culturais, causou ciúmes em Madri.

Na Galiza a dependência é tam profunda que ainda nos damos ao luxo de nom nos divorciarmos de quem nos leva maltratando tantos anos.

No nosso caso, nom é o momento senom o próprio casal o que é decidido na RAE de Madri.


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