Um xeque mal realizado podia alimentar a vitimização do PS e, em caso de eleições, dar-lhe uma maioria absoluta. Nesse sentido, e também pressionado pelos banqueiros portugueses e pelas instâncias europeias, apoiou as piores medidas do PS. Mas para o maior partido da direita portuguesa não foi fácil gerir o tabuleiro de xadrez com uma minoria no parlamento. Jogaram cautelosos e tentaram, por todos os meios, que o PSD provocasse eleições antecipadas. No fundo, os dois partidos, que representam os mesmos interesses mas famílias diferentes, lutaram por este momento.
Entre a esquerda, há quem fique triste e quem fique alegre pela queda do governo. Só pode ficar alegre quem considere que a derrota do PS é também fruto da luta de massas, que o PSD, em parte, tentou agradar de forma populista. Só pode ficar alegre quem considere que entre o PS e PSD não há diferenças importantes. Ambos são partidos de direita e ambos perseguem os mesmos objectivos. E só pode ficar triste quem, ingenuamente ou não, encontre o cheiro podre de algum panfleto socialista perdido nas caves do Largo do Rato e ache que ainda são de esquerda. Parece-me que a maioria dos que ficaram tristes são os mesmos que se afundaram com Manuel Alegre, que apoiaram a banca grega e que abriram caminho à agressão à Líbia. No fundo, sendo ingénuos, encontram sempre forma de justificar a defesa do carácter democrático do que não é democrático.
Aos ingénuos que ficam tristes pela queda do governo, aconselho-os que fiquem antes atentos à possibilidade real e grave da criação de um governo de salvação nacional com a participação dos três coveiros da Revolução de Abril: PS, PSD e CDS-PP. Porque a concretizar-se seria o sonho do capital e o terror dos trabalhadores. Como no xadrez, os capitalistas portugueses têm dois cavalos que põem e dispõem conforme as necessidades de cada momento. Talvez tenha chegado o momento de os usar ao mesmo tempo.
Independentemente de qualquer cenário, a derrota das políticas de direita do PS, PSD e CDS-PP está nas mãos dos trabalhadores. Acreditar que o PS é melhor do que o PSD é iludir o povo português. É a história do polícia bom e do polícia mau. Mas, no fundo, ambos são polícias.