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Carlos Serrano Ferreira

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Espanha no turbilhão: a história voltará a andar?

Carlos Serrano Ferreira - Publicado: Terça, 03 Junho 2014 16:07

O Estado espanhol está em turbilhão. Numa só semana se produziram mais mudanças do que em todos os anos desde o fim da ditadura de Francisco Franco. Mais importante que isso são as possibilidades que se abrem e deixam o destino desse gigante europeu mais do que incerto, totalmente em aberto.


Nas eleições europeias deste ano o bipartidarismo ruiu com o naufrágio eleitoral dos partidos centrais PSOE (centro-esquerda) e PP (direita) que perderam juntos mais de 5 milhões de votos que em 2009, e pela primeira vez desde a redemocratização somam menos de 50% (49,06%), quando em 2009 somavam 81%! O PSOE perdeu 42% dos votos que teve em 2009 e o PP 40%[1]! O pior resultado até então era de 1989 quando somaram 61%. O PP obteve 16 assentos no parlamento Europeu e o PSOE somente 14, totalizando apenas 30 assentos num total de 54, contra os 47 em 2009 (em 50)[2]. Se a abstenção foi enorme (54,1%) como em toda a Europa (57%), o mais notável foi o crescimento dos extremos, em particular da esquerda, com a pulverização da eleição: a Izquierda Plural (coalizão com o Partido Comunista Espanhol à cabeça) foi o terceiro partido mais votado, com seis parlamentares[3]; o novo agrupamento PODEMOS, emerso do movimento dos indignados, surgido há apenas quatro meses e com um orçamento de apenas 100 mil euros, ficou em quarto com cinco parlamentares (tendo ficado eleitoralmente em terceiro nalgumas regiões, como em Madrid) [3][4]; o partido fascista União, Progresso e Democracia (UPyD ) ficou com quatro [3] e outros partidos completaram as vagas.

Esse resultado é um repúdio não só a política de austeridade realizada pelo governante PP, do primeiro-ministro Mariano Rajoy, como ao PSOE em sua similitude com o partido de direita, tornando impossível distinguir entre os dois quando no governo. A população do Estado Espanhol expressou sua insatisfação com esse rodízio de partidos e rostos que não altera em nada as políticas neoliberais, geradoras da crise e que mantêm as altas taxas de desemprego (em março de 25,3% em geral e de 53,9% entre os jovens!)[5]; a opressão contra as nacionalidades, expressa em particular na negação ao direito à autodeterminação nacional, como na Catalunya, no País Basco e Galiza; bem como a austeridade para o povo e a generosidade para com os ricos. Nem mesmo a pressão pelo voto útil conseguiu canalizar os votos de protesto ao governo atual no seu gêmeo na oposição, o PSOE.

A primeira consequência produzida pela derrota histórica do PSOE foi a queda de Alfredo Pérez Rubacalba de sua direção. Ele já havia protagonizado o pior resultado eleitoral anterior, quando em 2011 nas eleições gerais teve apenas 28,76%[6]. O PSOE perdeu votos mesmo em seus bastiões. Só como exemplos: perdeu 328.314 em seu maior reduto eleitoral, na Andaluzia, onde governa; na Catalunya, onde foi a primeira força em 2009 com mais de 700.000 votos, obteve menos de 360.000, se situando apenas na terceira posição [7].

Hoje pode ser um dia histórico: o rei Juan Carlos I, após quase quatro décadas de reinado abdicou. É verdade que o faz para tentar reabilitar a combalida imagem da monarquia espanhola. As despesas absurdas da Casa Real, como a viagem de caça de Juan Carlos ao Botswana – onde se soma sua abjeta atitude como então presidente de honra da ONG ambientalista WWF de matar elefantes – isto enquanto uma grande parte da população espanhola se vê naufragada no desemprego e lutando contra os programas de austeridade[8]; as denúncias na Justiça envolvendo membros da família real em crimes, como o duque de Palma, Iñaki Urdangarin, e sua esposa, a infanta Cristina no caso Nóos levou ao desgaste da monarquia espanhola. Entre janeiro de 2013 e janeiro de 2014 a parcela da população que queria que o rei abdicasse passou de 44,7% para 62% e entre 2012 e 2014 a porcentagem que tinha uma opinião boa ou muito boa do rei caiu de 76% para 41,3%, e 69,4% criam que o rei não poderia recuperar o prestígio da monarquia [9]. Mais importante ainda: pela primeira vez os que apoiavam a monarquia eram menos da metade, com 49,9%, contra os 53,8% do ano anterior [9]. E, a nota de avaliação da monarquia pela população, pelas pesquisas do CIS, caiu desde outubro de 2011 abaixo da nota 5 de aprovação, com 4,89 e em abril de 2014 chegou a apenas 3,72, sendo que em seu auge nos últimos vinte anos, em dezembro de 1995, recebia 7,48 [10]. A renúncia de Juan Carlos tenta reverter essa situação, mudando o rosto à frente da monarquia para manter a instituição: na pesquisa do El Mundo-SIGMA DOS, 56,6% acreditava que a ascensão do Príncipe Felipe poderia recuperar o prestígio. Contudo, as manifestações convocadas para hoje mesmo, por várias organizações republicanas, exigindo um referendo para decidir pela III República Espanhola deixam claro que isto parece muito longe [11].

Outro fato que aponta para o ruir do regime espanhol é o crescimento consistente do independentismo junto das nacionalidades oprimidas, como se expressou nas manifestações hoje na Catalunya, mas particularmente nas eleições europeias de domingo passado. Ao contrário do restante do Estado Espanhol, a afluência na Catalunya e no País Basco (incluindo Navarra) elevou a taxa de participação. Só na primeira 10% a mais da população que em 2009 votou [12]. A coalizão nacionalista de esquerda Euskal Herria Bildu foi a formação mais votada somando o País Basco e Navarra, sendo a segundo em cada uma, e os partidos abertzales, nacionalistas bascos (EHBildu e PNV) tiveram mais de 55% de votos no País Basco [13]. Na Catalunya os partidos independentistas conquistaram a maioria dos votos e a Esquerda Republicana da Catalunya (ERC) foi a grande vitoriosa, à frente dos nacionalistas de direita do CiU (que pagam pela sua política de austeridade e sua adesão à independência oportunística só recentemente). A ERC e o EHBildu são os defensores da independência unilateral[13]. Lembre-se que no dia 9 de novembro haverá o plebiscito na Catalunya sobre a independência, e que apesar da negação de Madrid, os preparativos seguem.

Será que estamos frente ao fim do regime da transição, surgido no Pacto de Moncloa, que manteve o edifício do franquismo em pé e apenas deu umas pinceladas democráticas? Será que o bipartidarismo que mantêm os grandes setores econômicos intactos enquanto a população afunda no desemprego chegou ao fim? Será que a monarquia restabelecida por Franco está com os dias contados e veremos o início da III República? Será que as nacionalidades oprimidas se libertarão da prisão espanhola? Resumindo: será que a história voltará a andar depois de ter o relógio parado com a vitória do golpe franquista no dia 1° de abril de 1939?

Referências bibliográficas:

(1) Péreza, Roberto. "La crisis del bipartidismo: PP y PSOE ceden a lós partidos minoritários 17 escaños respecto a 2009". ABC, 26 maio 2014. Disponível em: http://www.abc.es/elecciones-europeas/20140525/abci-psoe-peor-resultado-historia-201405252310.html.

(2) Idem.

(3) Resultados das eleições europeias retirado do site oficial: http://www.resultados-eleicoes2014.eu/pt/country-results-es-2014.html.

(4) Woods, Alan. El significado de las elecciones europeas. Disponível em: http://www.marxist.com/el-sifnificado-de-las-ellecciones-europeas.htm.

(5) EUROSTAT. Euro area unemployment rate at 11.8%. 2 maio 2014. Disponível em: http://epp.eurostat.ec.europa.eu/cache/ITY_PUBLIC/3-02052014-AP/EN/3-02052014-AP-EN.PDF.

(6) Muñoz, Fernando. "Elena Valenciano deja al PSOE hundido y a três puntos de distancia del PP". ABC, 26 maio 2014. Disponível em: http://www.abc.es/elecciones-europeas/20140525/abci-resultados-psoe-europeas-valenciano-201405252032.html.

(7) Cervera, César. "En busca de los votos perdidos del PSOE". ABC, 27 maio 2014. Disponível em: http://www.abc.es/espana/20140527/abci-busca-votos-perdidos-psoe-201405262136.html.

(8) Jornal de Notícias. "Caça ao elefante origina críticas ao rei de Espanha". Jornal de Notícias, 16 abril 2014. Disponível em: http://www.jn.pt/PaginaInicial/Mundo/Interior.aspx?content_id=2422179&page=-1.

(9) EL MUNDO-SIGMA DOS. "Una institución em crisis (I)". El Mundo.es, janeiro 2014. Disponível em: http://www.elmundo.es/album/espana/2014/01/01/52c409c4268e3eab218b456d.html.

(10) Europa Press. "Los españoles, muy desencantados con la Monarquía". Público.es, 02 junho 2014. Disponível em: http://www.publico.es/politica/524646/los-espanoles-muy-desencantados-con-la-monarquia.

(11)Dorado, Maria Ruiz-Ayúcar. "La ciudadanía se echa a la calle para pedir un referéndum por la III República". Público.es, 02 junho 2014. Disponível em: http://www.publico.es/524711/la-ciudadania-se-echa-a-la-calle-para-pedir-un-referendum-por-la-iii-republica.

(12) Montañés, Érika. "El PP amarra la victoria pese al severo castigo de España al bipartidismo". ABC, 27 maio 2014. Disponível em: http://www.abc.es/elecciones-europeas/20140525/abci-europa-vota-espana-201405251934.html.

(13) Tsavkko, Raphael. "Eleições Europeias: O fim do bipartidarismo espanhol?". Brasil de Fato, 28 maio 2014. Disponível em: http://www.brasildefato.com.br/node/28686.


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